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Quinta-feira, Março 02, 2006
Fraquezas
O sol impedia que meus olhos focassem o horizonte corretamente. Era um lugar incrível: talvez o único com o qual nunca havia sonhado, mas que nunca mais abandonou os meus pensamentos. O espírito era contagiante e logo todos se juntaram aos meus devaneios. Sinto-me invadido em algumas formas, apesar de reconhecer esse sentimento como algo familiar às constantes vertigens de meu corpo.
Subitamente o cenário se transforma. Aquele pequeno paraíso se torna em um longo e angustiante túnel. Completamente no escuro, não podia mais ouvir as pessoas, as ondas e o som de minha própria transcendência, que se aproximava em velocidade acelerada. Rajadas de luz revelavam as semelhanças entre esse cenário e minha existência, mostrando vidas que haviam sido marcadas a ferro por esse sentimento que me cercava.
As paredes do túnel refletiam as dores e as angústias de toda uma geração inquieta. O local se modificava a cada momento. Tudo se mexia de uma forma bizarra: tremores sacudiam o meu caminho, fazendo-me perder sentidos momentâneos. No desespero, comecei a correr, mas o tempo parecia andar mais devagar, para tornar maior todo esse meu sofrimento.
Não resisti... cedi à insensatez.
Nesse exato momento assisto à queda de meus valores e crenças. Sinto falta de uma estima, proveniente de qualquer um. Me isolo dentro de minha concha que, apesar de solitária, ainda garante a individualidade necessária para a construção de meu caráter e de meus ideais. Incompatibilidades me afastam de possíveis exceções. Circulo por uma momentânea insanidade, tudo para me proteger de todos estes demônios que, armados com minhas fraquezas, tendem a me atacar de forma impiedosa e cruel, tentando conquistar meu frágil corpo.
(26/02/2006)
:: escrito por .: Poetic Tragedy :., 03:19 Shout it out loud!:
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Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006
Rótulos
Poderia ser uma tragédia grega, que contemplaria um amor inatingível. Mas não é. Poderia ser uma poesia moderna, sobre sexo em máquinas. Mas também não é. Poderia até ser um filme pornô, contado de forma noir. Mas não é. É simplesmente a história de um rapaz e uma garota, vivendo atualmente na cidade, passando pelas dificuldades de se estar junto.
Eles se conheceram pela vida, pode ter sido no colégio, na faculdade, em um bar ou em um acaso qualquer. E algo os uniu, uma cerveja, um pôr-do-sol, uma música que tocou no rádio ou algum outro acontecimento prosaico. E se seguiu de um processo. Ele queria saber o que ela pensava, e ela queria saber como ele agia.
Tudo corria bem... ambos se aproximavam e não se preocupavam com o que acontecia. "Deixe o tempo decidir", talvez pensassem. Mas não era o que todos à sua volta queriam. Eles precisavam de uma afirmação, uma certeza, um nome, algo através do qual pudessem ver essa relação. "Mas são namorados?", perguntavam para ela. "Quando a conheceremos?", perguntavam a ele.
"O mundo não é complicado, vocês que o fazem assim", ele replicava. As respostas eram automáticas e fugiam de um padrão. A relação era para ser vivida, não explicada. Qual era o sentido de procurar uma palavra que a definisse? Tudo isso se passava pelas cabeças dos dois.
Diferentemente do que aconteceria em uma história perfeita, as coisas não melhoraram. A pressão aumentou, e a necessidade de uma resposta parecia ser de primeira importância. Curiosamente, não para eles. Os dois continuavam suas vidas, juntos, sem preocupações. O mundo em volta tentava fazê-los crer que algo estava errado.
Eles começaram a ser deixados de fora. Não havia lugar para algo tão estranho e bizarro. Essa relação havia fugido dos padrões, ao ponto de assustar a sociedade. "Depravados!", "Infantis!", "Comunistas!". As pessoas chegavam a atravessar a rua, quando os viam andando, lado a lado, conversando e sem a necessidade de dar as mãos.
Aquilo tudo não fazia sentido algum. Os dois se perguntavam o que teriam feito de errado, além de viverem suas vidas... juntos.
Essa pode parecer uma simples história de amor. Não! Essa é uma história de preconceito. A história de uma sociedade que faz questão de classificar o mundo à sua volta e que acabou por rotulá-los e segregá-los, por causa desse título, com o qual eles não se importavam.
(24/02/2005)
:: escrito por .: Poetic Tragedy :., 05:14 Shout it out loud!:
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Domingo, Janeiro 29, 2006
Prosaico
Era um dia, como qualquer outro, em uma cidade como qualquer outra. Tudo o que acontecia era perfeitamente normal. As pessoas conviviam, os seres coexistiam e em algum lugar corações eram quebrados. Nada podia ser mais normal.
Duas pessoas se encontram em um bar e começam a beber. Seus corpos exalam suor e sinais. Todos prestavam atenção neles.
Algo poderia haver de diferente, caso eles não fossem completamente comuns. O modo como falavam, como se expressavam e como se olhavam era claro. Como qualquer um faria com uma pessoa com quem possui grande intimidade, como era o caso. Nada poderia ser mais prosaico... e todos ainda insistiam em olhar.
Aquela conversa tinha algo que atraía a atenção das pessoas em volta, apesar de não ser nada além de duas pessoas conhecidas trocando suas experiências de uma forma mais afetiva e carinhosa. E todos olhavam.
Tudo corria normalmente, apesar das reações diversas daqueles que os cercavam. Comentários eram feitos. As pessoas olhavam. Falavam baixo nos ouvidos daqueles que estavam próximos. E tudo o que acontecia era uma simples conversa.
Em um determinado momento, os dois começaram a notar que estavam sendo olhados, observados e analisados. Sentiram-se desconfortáveis. Mas continuaram com o papo, prosaico como era anteriormente, mas incomodados, sem dúvidas. A cena já escandalizava alguns, que começaram a se retirar do bar, indignados com o que estava acontecendo.
E tudo piorou quando se beijaram. Não foi uma cena de Hollywood, muito menos algo que remetesse a um filme pornô. Os lábios se encostaram rapidamente, como muitas mães fazem com seus filhos que, por sua vez, fazem em suas coleguinhas na escola.
As famílias se indignaram. As pessoas ao redor protestaram. Alguns praguejaram contra eles. E quase todos desaprovaram. O clima não estava para aquilo. Os dois decidiram deixar o bar, pagaram sua conta e se retiraram. Foi um alívio para todos. Aquela cena mais que prosaica foi encerrada pelo bem da moral e dos bons costumes.
Paulo e Marcelo nunca mais foram naquele bar.
(20/01/2006)
:: escrito por .: Poetic Tragedy :., 02:25 Shout it out loud!:
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Segunda-feira, Julho 11, 2005
Outono
Não era a forma mais natural de se viver, mas era como encarava o mundo. A preocupação principal era esguia e singela, era o motivo que eu necessitava para me sentir livre, mas era o que me aprisionava. E era nessa contradição que se baseava a minha vida.
Recorrer a um escape seria muito fácil - ao menos conscientemente. Então tentava encontrar um caminho, não importando o quão inócuo fosse, apesar de meu futuro depender dessa resposta. Ao me entregar a essa luta, percebi que não havia escapatória, era minha própria prisão sendo formulada dentro de mim mesmo. Desse modo, tudo que podia fazer era me jogar. Procurei um céu, procurei uma cama, procurei um seio, algo que pudesse me abraçar e acabar com esses anseios que me consumiam com o passar do tempo.
E o momento não passava. Era mais um instante de minha vida. Eterno.
Os gritos não surtiam efeito. Ninguém se enternecia por minha dor e meu pedido indecoroso de desculpas àqueles que por minha existência haviam sido tocados. Era o momento de dizer adeus e desistir de um sonho. Era o momento de se entregar a lágrimas e sentimentos inóspitos.
Em uma última e desesperada tentativa de diminuir a dor, me isolei. E então percebi. Cada vez mais me perdia, até estar completamente despido de toda minha sanidade.
(11/07/2005)
:: escrito por .: Poetic Tragedy :., 04:13 Shout it out loud!:
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Segunda-feira, Abril 25, 2005
Ironias de uma i-vida
Ainda sonho com o dia que poderei superar esse momento. É sempre o clímax, que se abunda de uma ironia que nem ao menos possui o requinte machadiano. Não, final de novela vagabunda permeia essa trama mal formulada e que não cansa de me usar como protagonista. E ainda assim, continuo sem poder roteirizar minha vida.
Só queria poder encontrar algum autor pós-moderno, e quem sabe criar um novo gênero literário. Quem sabe o mal do século XXI, uma trama fraca que cada vez mais nos envolve e preenche o vazio de nossas vidas com ironias que remetem às nossas inações. Patético! A trilha sonora seria composta por músicas de apelo popular e sentido artístico nulo.
Sim. Esse é o tempo do nada e o reflexo de uma geração que se esconde atrás de pseudônimos virtuais. A representação de uma época em que personagens superficiais saem das mais pobres novelas para a vida real, assumindo um caráter existencial extremo e reduzindo o ser humano a um número dentro de uma comunidade virtual. E todo seu mundo gira em torno de suas irrelações dentro dessa mentira chamada de vida.
Vamos celebrar a inexistência do homem e todas essas pessoas que procuram vida em um objeto inanimado. Vamos chorar mais um pouco de nossa tristeza e procurar refúgio nesse mundo mágico de estética e velocidade. Fetiches de uma sociedade perdida em si mesmo.
É realmente irônica essa inação humana. Ainda bem que possuímos um local de escape, como é bom esse meu ciberespaço.
(24/04/2005)
:: escrito por .: Poetic Tragedy :., 02:26 Shout it out loud!:
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